Solidariedade
Comitê de Desenvolvimento do Dunas lança projetos para ajudar famílias carentes
Ações como doação de roupas, alimentos e horta comunitária mobilizam a comunidade
Jô Folha -
Em tempos de pandemia, uma palavra que por muitas vezes se viu no esquecimento, reascendeu: a solidariedade. E se o tema for comunidade trabalhando em prol da própria população nos momentos mais difíceis, o Comitê de Desenvolvimento do Dunas (CDD) domina o assunto. Colecionando projetos e histórias de superação, o CDD, que precisou suspender suas atividades presenciais, vem agora desenvolvendo ações voltadas à manutenção da alimentação básica e à distribuição de roupas para a população local, através dos projetos Guarda-Roupas Solidário, Horta Comunitária e realizando o apadrinhamento de famílias para a distribuição de cestas básicas.
Antes da pandemia, o local realizava a doação de alimentos, roupas e brinquedos em ocasiões especiais como páscoa, dia das crianças e natal. Agora, uma corrente do bem foi formada com o apoio de arrecadações do Fórum em Defesa da Soberania Alimentar, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Caritas Arquidiocesana de Pelotas, Rede Emancipa Pelotas, entidades religiosas, entre outros. "Até então a gente era mais ligado à questão cultural, mas quando a gente viu mesmo o que as famílias estavam passando, pensamos em parar tudo e que agora estava na hora de ajudar", comentou o secretário do CDD, Luan Cunha. O número de famílias contempladas variava, e o Comitê chegou a fazer a distribuição cem cestas para pessoas do Dunas e do corredor do Obelisco.
Por conta da grande demanda, a ideia dos responsáveis pelo local é otimizar o serviço e apadrinhar 50 famílias para dar assistência fixa durante um certo tempo, ainda indefinido. A partir desse projeto, está sendo realizado o cadastro das famílias de baixa renda que precisam de auxílio com alimentação. Sem ter uma noção exata da quantidade de alimentos que já foi repassada através de doações, Cunha conta que o resultado da ação tem feito a diferença na vida de quem mais precisa. "No dia 1º de maio completou um ano da ação junto ao Fórum, e os números repassados por eles foram que as doação já ultrapassaram três toneladas de alimentos, fora as outras contribuições que recebemos".
Guarda-roupas Solidário
Quem passa pela rua Ulisses Guimarães, no Dunas, não pode deixar de notar um guarda-roupas na frente do Comitê de Desenvolvimento. E o intuito da ação é justamente essa, chamar a atenção de quem mais precisa. Realizado desde o ano passado, o Guarda-roupas Solidário oferece vestimentas a qualquer pessoa, como calças, camisetas e casacos, sem a necessidade de pedir, somente passar e pegar.
Segundo o presidente do Comitê, Michel Knuth, anteriormente era necessário a pessoa ir até o local e aguardar que alguém lhe levasse até a sala onde se encontram as roupas, o roupeiro na rua torna-se mais acessível para a realização das doações. "Antes, o pessoal vinha, pegava uma ou duas sacolas. Na rua fica mais visível e agora que está voltando o frio isso chama muito mais a atenção", conta. Engajada na causa, a ONG Usina Feminista, que incentiva a autonomia financeira e cidadã para mulheres pelotenses através da economia solidária, auxilia na manutenção das roupas para que possa chegar até a população em boas condições.
A empregada doméstica Rita de Cássia Pinheiro, 49, era uma das pessoas na fila para o cadastro das cestas básicas e conta que devido à pandemia perdeu seu emprego e por isso precisou recorrer às doações. "Eles (Comitê) me ajudaram muito, atendem a todos muito bem. Eu vim aqui para receber alimentação, roupas, e agora pela primeira vez estou vindo para receber um rancho. Graças a Deus e a eles que nunca nos falta comida". A doméstica também não escondia a felicidade após escolher alguns casacos no Guarda-roupas Solidário.
Outros projetos seguem movimentando o local
A Horta Comunitária é mais uma das ações do Comitê. O projeto teve início neste ano e conta com mutirões de trabalho que envolve em torno de 20 pessoas e a parceria do Grupo de Agroecologia (GAE), formado por estudantes de Agronomia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). A ação tem como objetivo, além o estímulo a agricultura orgânica, a arborização do espaço criando uma área de convivência no bairro.
Mas o local não encerrou totalmente as portas para atividades culturais. Lives são realizadas diretamente do espaço, com apresentações de música, como rap e hip hop e dança, além da exposição de grafite. Seguindo na área da arte, no final de janeiro, o Comitê de Desenvolvimento do Dunas sediou o Salve Arte Festival, um cinema de calçada, que contou com apoio da prefeitura de Pelotas e governo do Estado. No estímulo à educação, no final do mês passado, durante a preparação para o concurso do IBGE, foi criado um grupo de estudos para os interessados em realizar a prova.
Diferencial
Criado no início dos anos 1990 ainda como Associação de Moradores, serviu como o motor das mobilizações daquele período para a construção da Escola Núcleo Habitacional Dunas, da Escola de Educação Infantil Paulo Freire e do Posto de Saúde. Com a mudança de nome a partir de uma determinação que a operação do programa não deveria ser feita por uma pessoa jurídica como a associação, mas por uma instituição do terceiro setor, organização não governamental, com o fim de buscar não só os direito de moradia, mas a organização local e a autogestão para o desenvolvimento da comunidade como um todo, o alcance cresceu.
"Ao longos dos anos o CDD tem focado no desenvolver o bairro e auxiliar aos cidadãos. Sempre foi voltado na questão da geração de trabalho e renda, além de projetos sociais. Então nesse espaço, que é uma incubadora propriamente dita, acontecem diversas atividades socioculturais.", explica o presidente do Comitê. O local abrange diversos meios, como por exemplo um estúdio de gravação multimídia, a ONG Usina Feminista com costura e moda, além de ser utilizado como uma extensão da UBS Dunas, para atendimento de grupo de pessoas com hipertensão, por exemplo.
O Comitê de Desenvolvimento do Dunas é o único na cidade. "A gente passa por outros bairros e acaba percebendo a falta disso, porque temos um trabalho sociocultural bem bacana. É uma ferramenta única dentro da periferia", comenta Luan. Sobre a importância do CDD, o presidente complementa afirmando que pessoas de outros bairros como Navegantes e Getúlio Vargas algumas vezes procuram atendimentos no Dunas. "É um espaço de educação, não só de assistência social, mas também cultura, esporte. A gente brinca, aqui é o centro das periferias. Acredito que com isso o Dunas é privilegiado", sintetiza.
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